Sobrecarga mental feminina: como isso afeta a mulher?
- Agenda 3Pontas
- 20 de abr. de 2025
- 4 min de leitura

“Eu preciso dar conta de tudo.”
Essa frase, repetida silenciosamente por tantas mulheres todos os dias, resume bem o peso invisível que muitas carregam. A sobrecarga mental feminina não é um exagero, nem “frescura” — é uma realidade psíquica que tem impacto direto na saúde emocional, nos relacionamentos e até na construção do próprio “eu”.
O que é sobrecarga mental?
Sobrecarga mental é o nome dado ao acúmulo de responsabilidades, tarefas, exigências e pressões que vão além do que o nosso corpo e mente conseguem processar com saúde. Ela se manifesta em pensamentos acelerados, dificuldade de descanso, autocobrança excessiva, sensação de culpa por não “dar conta” de tudo e, muitas vezes, em sintomas físicos como insônia, irritabilidade, dores no corpo, crises de ansiedade ou tristeza constante.
E o mais importante: ela não vem apenas do excesso de tarefas visíveis, mas de uma carga invisível que é emocional, afetiva e simbólica. É o “ter que lembrar” de tudo, prever tudo, cuidar de todos. Muitas vezes, sem nem perceber que está se perdendo de si no meio disso tudo.
Por que a sobrecarga mental atinge mais as mulheres?
Ao longo da história, a mulher foi ensinada a cuidar. Dos filhos, da casa, do outro, da harmonia do lar, do ambiente de trabalho, dos relacionamentos. Mesmo que hoje existam outras configurações sociais e familiares, a herança emocional dessa função ainda é fortemente presente — e internalizada de forma quase inconsciente.
Além disso, mesmo quando a mulher ocupa espaços no mercado de trabalho, em cargos de liderança ou em projetos pessoais, ela raramente se vê isenta das tarefas domésticas e do cuidado com os outros. É como se ela precisasse se provar o tempo inteiro, em todos os lugares.
Essa dualidade (ou multiplicidade) de papéis é um dos grandes gatilhos da sobrecarga mental. E aqui entra um ponto importante que a psicanálise nos ajuda a pensar: o quanto de tudo isso realmente é desejo, e o quanto é exigência externa internalizada como se fosse nossa?
O olhar da psicanálise
Winnicott, psicanalista britânico que se dedicou profundamente ao estudo do desenvolvimento emocional primitivo, falava muito sobre a importância do ambiente e das relações primárias na constituição do “verdadeiro self” — ou seja, da essência do sujeito, da sua autenticidade.
Ele dizia que, para uma pessoa se desenvolver de forma saudável, ela precisa ter um ambiente suficientemente bom. Um espaço onde possa existir de forma espontânea, com acolhimento, segurança e liberdade para ser quem é.
Quando esse ambiente exige demais, julga, cobra ou sufoca, o sujeito começa a desenvolver o que Winnicott chamou de “falso self”: uma espécie de máscara psíquica que serve para sobreviver às exigências do meio, mas que acaba distanciando a pessoa da sua própria verdade interior.
Agora pense: quantas mulheres vivem assim? Atendendo expectativas, cuidando de todos, tentando parecer fortes o tempo todo, enquanto por dentro estão exaustas, desconectadas de si e com medo de falhar?
Essa desconexão do verdadeiro self é uma das consequências mais profundas da sobrecarga mental. Porque não se trata apenas de cansaço físico, mas de uma forma silenciosa de adoecimento psíquico.
A mulher que cuida de todos, mas esquece de si
No consultório, não é raro ouvir relatos como:
“Eu me sinto esgotada, mas não posso parar.”
“Eu me irrito com facilidade, e depois me culpo.”
“Me olho no espelho e não me reconheço mais.”
“Às vezes parece que não sei mais quem eu sou, além de todas as funções que desempenho.”
Esses relatos falam sobre uma ruptura com o próprio desejo. E, em muitos casos, a mulher se acostuma tanto a responder ao desejo do outro (dos filhos, do companheiro, da família, da sociedade), que quando finalmente tem um tempo para si, nem sabe o que quer ou o que gosta.
Winnicott nos ensina que a capacidade de estar só é uma conquista emocional — não no sentido de solidão, mas de conseguir habitar o próprio mundo interno com segurança, sem medo do abandono. Uma mulher sobrecarregada, que nunca teve espaço para si, dificilmente encontra esse lugar interno de silêncio e escuta genuína.
O impacto nas relações
A sobrecarga mental também atinge diretamente os vínculos. Quando não há espaço para descansar, elaborar emoções ou se reconectar consigo mesma, é comum que a mulher fique mais reativa, impaciente, ressentida ou apática nas relações. Não por escolha, mas por esgotamento.
Essa exaustão também pode afetar a libido, o prazer, a criatividade e o senso de propósito. Relações afetivas passam a ser mais um lugar de exigência do que de encontro. Relações de trabalho tornam-se fontes de angústia. A maternidade, por vezes, se transforma em culpa constante. E o mais doloroso: ela se sente sozinha mesmo cercada de pessoas.
A importância de abrir espaços de cuidado
Falar sobre isso já é um gesto de cuidado. Reconhecer que a sobrecarga mental feminina existe, que tem impactos profundos e que não deve ser romantizada é o primeiro passo para uma mudança real — individual e coletiva.
E isso não significa “abandonar tudo e viver para si mesma”. Significa incluir a si mesma na própria equação da vida. Reservar momentos de escuta, descanso, prazer e presença. Reconectar-se com o que é verdadeiro. Retomar, aos poucos, aquilo que Winnicott chamava de espontaneidade — que é onde mora a saúde emocional.
Como a psicoterapia pode ajudar?
A psicoterapia, especialmente com um olhar psicanalítico, é um espaço onde a mulher pode existir sem precisar performar. Sem julgamentos, sem pressões. É um lugar de construção de sentido, onde cada dor, dúvida ou exaustão pode ser acolhida com escuta e cuidado.
É também um convite para se reconectar com seu verdadeiro self. Para se lembrar que antes de ser mãe, profissional, companheira ou cuidadora, você é alguém que merece espaço, pausa e presença.
Um convite ao reencontro
Se você se identificou com esse texto, talvez seja hora de olhar com mais carinho para essa sobrecarga que vem te acompanhando. Talvez seja hora de se perguntar:
O que, de tudo que faço, realmente me preenche?
Que papéis estou assumindo por obrigação, e não por desejo?
Como posso abrir, ainda que aos poucos, espaço para mim mesma?
Você não precisa dar conta de tudo. E, sobretudo, não precisa fazer isso sozinha.
Se quiser conversar mais sobre isso, a psicoterapia pode ser um caminho de reencontro com quem você é — com leveza, profundidade e escuta genuína.
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